Sou agente de viagens há muitos anos, atuando como empresário do setor há pelo menos 30, período em que posso dizer que vi de tudo, incluindo a formidável movimentação dos múltiplos elos da cadeia de distribuição dos serviços de Viagens e Turismo, no Brasil e no mundo.
 
Apesar da multiplicidade de motivações de cada player — fornecedores (prestadores de serviços de transporte, de hospedagem e outros), revendedores (agências de viagens, operadores de turismo etc.) e sistemas (GDS, agregadores etc.) — o objetivo permanece o mesmo de décadas: dar capilaridade à venda de milhões de produtos e serviços, em uma escala sempre crescente ao longo dos tempos.
 
Por isso, sempre que analiso o mapa da distribuição de serviços de Viagens e Turismo no Brasil, procuro entender qual a relevância de cada parte do processo e, em especial, do negócio em que investi toda a minha vida profissional. Na mais recente análise que fiz, abrangendo os 15 primeiros anos deste milênio, como todos sabemos a internet gerou oportunidades para importantes novos entrantes em cada um destes três conjuntos de atores do cenário da distribuição:
 
Entre os sistemas, os agregadores foram os primeiros a impactar a distribuição, ao surgirem como alternativa ou complemento aos GDSs, até então hubs absolutos da distribuição de serviços de viagens. Os agregadores criaram assim um novo modelo de atendimento ao mercado corporativo (dois terços do mercado total), modelo este imediatamente compreendido e absorvido pelas agências de viagens corporativas.
 
Entre os revendedores, as agências de viagens on-line atingiram uma capacidade maior de atendimento ao público consumidor, o que gerou enorme impacto no mercado de agenciamento. Por isso, as OTAs passaram a ser vistas inicialmente como ameaça e, em seguida, como oportunidade de perpetuação do negócio agência de viagens, uma vez que as novas tecnologias existem e estão disponíveis no mercado.
 
Entre os fornecedores, o grande impacto para os hotéis foi o modelo disruptivo da economia compartilhada, que gerou a criação do Airbnb, entre outros, abrindo as portas de milhões de novas propriedades, que, de um dia para o outro, passaram a concorrer para hospedar o mesmo cliente dos hotéis. Já entre as companhias aéreas, o grande desafio sempre foi, e continua sendo, o controle estratégico da distribuição de seus serviços e, por isso, passaram a investir, através da Iata, em um novo padrão tecnológico, aberto (não proprietário), para sistemas de reservas, o NDC (New Distribution Capability).
 
Baseado em uma espécie de economia compartilhada B2B, o NDC já começa a impactar alguns mercados de distribuição de voos, ao oferecer as mesmas oportunidades a todos os distribuidores (fornecedores, revendedores e sistemas) de desenvolverem ferramentas para a conquista de um novo consumidor.
 
Por isso, ao nos aprofundarmos nas questões comerciais envolvendo o NDC, percebemos claramente que existe um item a ser resolvido no que se refere ao modelo de remuneração das agências de viagens, que detêm, até hoje e apesar de todas essas mudanças, a maior fatia na distribuição de serviços de viagens, no Brasil e no mundo.
 
Fica aqui a dica: a impressão que tenho é de que a velocidade de evolução do NDC dependerá do modelo de remuneração do agenciamento de viagens pelo investimento tecnológico e pelos serviços, principais e acessórios, a serem vendidos pelo novo padrão. 

Edmar Bull
Presidente da ABAV Nacional
Fonte: Anuário de Distribuição da PANROTAS

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