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O Turismo antes da ABAV
Agentes fomentaram e deram forma ao desenvolvimento do setor
Até chegarem ao que são hoje, as agências de viagens passaram por uma
série de transformações. Não é exagero afirmar que o conceito de “viajar” foi
lapidado, desde o início, pelas mãos desses profissionais.
No início do século 20, quando a aviação comercial ainda não existia, já estavam
estabelecidas no Brasil diversas empresas, que se dedicavam à venda
de passagens de navios — então o grande meio de transporte — e também
a fazer câmbio, para atender principalmente os estrangeiros que desembarcavam
no País, ou as pessoas de maior poder aquisitivo que viajavam para o
exterior, basicamente para a Europa.
Foi assim com a Miller, de São Paulo. Em 1904, Charles Miller, o introdutor do
futebol no Brasil, assumiu a empresa que havia sido fundada por seu tio em
1880; a empresa passa a ostentar o seu sobrenome e a representar a Royal
Mail Lines (conhecida como Mala Real Inglesa), cujos navios levaram muitos
brasileiros para a Europa e trouxeram muitos imigrantes para o Brasil. Na mesma
época, no Rio de Janeiro, ingressava no setor a família Cinelli, precisamente
em 11 de setembro de 1901. No então Distrito Federal ficaram famosas
as “casas”, como eram chamadas as empresas que se dedicavam a
esse tipo de comércio. A Casa Aliança foi fundada em 1911; da mesma
época é a Casa Bernardo, que pertenceu ao pai de Camilo Kahn, um dos
fundadores da Associação Brasileira de Agências de Viagens — ABAV.
Também
em 1911 foi fundada em São Paulo a Martinelli. Na segunda década do
século 20 instalou-se no Brasil a Expresso Internacional, que ficou famosa, fez
escola e passou a ser conhecida pelo seu endereço telegráfico: Exprinter. Em
Santos, litoral paulista, a Casa Branco foi criada em 1920.
Antes mesmo dessa época, contudo, precisamente em 1838, Manoel José
do Conde, em Salvador, abriu uma empresa dedicada à importação (bacalhau
e outros tipos de alimentos) e exportação (cacau e fumo principalmente).
Com o desenvolvimento dos negócios, começou a representar a companhia
marítima Lloyd Real Holandês, passando a se dedicar à venda e apoio para
cargas e passageiros. Como se vê, o conceito de viagens e turismo, como
conhecido hoje, ainda não existia no Brasil. Mas desde o início já havia o
embrião do que viriam a ser os agentes de viagens da atualidade.
No final dos anos 20 do século passado começa a se formar a aviação comercial.
No Rio Grande do Sul são criadas, quase que ao mesmo tempo, a
Sindicato Condor, de origem alemã, e a Varig. Os primeiros vôos comerciais
levavam basicamente cargas e as malas postais (correio). Viajar de avião, ou
melhor, de hidroavião, era sinônimo de aventura e poucos ainda se arriscavam.
Para se ter uma idéia, a Varig fechou o ano de 1927 tendo transportado
652 passageiros, em 85 viagens e 210 horas de vôo.
Em 1930 chegou ao Brasil o primeiro dos dirigíveis, que passaram a ser conhecidos
simplesmente por Zeppelin, nome de um deles. Eram a grande sensação,
pois ligavam o Brasil à Europa em apenas quatro dias, muito mais
rápido, portanto, que os navios que cruzavam o Atlântico. Como bagagem,
além dos 20 quilos permitidos a bordo, havia a possibilidade de mandar, nos
navios a vapor da Hamburg-America Linie, mais 100 quilos. Nas confortáveis
cabines do Graf Zeppelin, código LZ 127 e Hindenburg, LZ 129, muitos endinheirados
foram para a Europa. “Eu vendi passagens de Zeppelin”, recordase
o pioneiro Camilo Kahn. A operação no Brasil, Uruguai, Argentina e Chile
estava sob a responsabilidade do Sindicato Condor, enquanto que a ligação
para os países da Europa era da Deutsche Lufthansa A.G.
A evolução da aviação comercial foi muito rápida se comparada ao início “aventureiro”
e à própria invenção do avião. Agora, além do transporte terrestre
(ferroviário) e marítimo, os primeiros agentes de viagens passaram a vender
também passagens aéreas. Os anúncios da Exprinter, por exemplo, nos anos
30 deixam clara a coexistência de transportadoras, de qualquer segmento, e
das agências de viagens, responsáveis pela venda “sem augmento de preços”.
Nesta época, um dos funcionários da Exprinter, no Rio de Janeiro, era
Nestor Barranjard Serra, que viria, nos anos 60, a ser o terceiro presidente da
Associação Brasileira das Agências de Viagens (ABAV).
O desenvolvimento dos transportes e a melhoria da infra-estrutura à disposição
dos turistas, além do incentivo para a abertura de novas agências de
viagens, gerou também a necessidade destas se organizarem. Nos anos 40,
Umberto Stramandinoli, Guilherme Mellechi e Luis Amâncio Tarquínio de Souza,
entre outros profissionais, já discutiam informalmente a necessidade de
formação de uma entidade que congregasse os agentes de viagens. Oficialmente,
contudo, nada aconteceu até 18 março de 1953, quando sob a liderança
de Stramandinoli foi criada a Associação Brasileira de Turismo (ABT).
“Um dos primeiros e talvez mais importantes propósitos da novel Associação
é dignificar o trabalho do agente de turismo”, disse Stramandinoli ao ser eleito
presidente provisório. A ABT, que deveria reunir também hoteleiros, empresas
de navegação aérea e marítima, transportadoras terrestres e casas de diversão
não prosperou.
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Anúncios publicitários da Exprinter publicados nos anos 30 do século passado: as agências de viagens estão no princípio da comercialização das viagens. |
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| Fonte: Livro ABAV 50 Anos, publicado na gestão de Tasso Gadzanis e editado pelo jornalista Luiz Sales |
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