Luana Alves em Ouro Preto (MG). Crédito: Reprodução/Instagram

O dia oito de março começou como símbolo de luta das mulheres por igualdade, pleito que até hoje faz parte das reinvindicações em todo o mundo. E não é para menos: no mercado de trabalho, por exemplo, elas ainda estão em desvantagem, pois são maioria entre as pessoas com ensino superior completo e ganham, em média, 75% do que os homens recebem. Esse número foi apontado na pesquisa Estatísticas de Gênero do IBGE, que avaliou os dados entre os anos 2012 e 2016.

Mesmo com os números desfavoráveis, elas não desistem e continuam conquistando o mundo do trabalho. No turismo não seria diferente, afinal, a determinação das mulheres que estão no setor já comprovou que esse é um espaço consolidado por elas. Seja atuando na “linha de frente”, ao criar políticas públicas que fomentem viagens, ou tendo o papel de turistas, desbravadoras e divulgadoras de destinos, elas são forças motrizes que geram, de forma direta, emprego e renda para o país.

PELO OLHAR DE QUEM FAZ VIAJAR – Dentre as conquistas já alcançadas pelo Ministério do Turismo estão ações realizadas por mulheres. Prova disso está no trabalho liderado por Teté Bezerra, secretária nacional de Qualificação e Promoção do Turismo. Junto com sua equipe, a secretária tem como responsabilidade a execução de programas para apoio à formalização e qualificação de profissionais e de prestadores de serviços turísticos. É também por meio da liderança da secretária que ações para o turismo responsável e a promoção dos destinos turísticos do Brasil acontecem.

Em seus mais de 40 anos de carreira na vida pública, a secretária aprendeu a conciliar vida pessoal com vida profissional, sem deixar de lado a competência em ambas ações. “As mulheres ainda enfrentam a dupla jornada (emprego e trabalho doméstico). As vezes conciliar as duas coisas tem um preço alto para muitas trabalhadoras, mas, para vencermos os desafios, temos que encará-los, mostrar nosso compromisso e competência”, explica a líder.

Magda Nassar e Teté Bezerra são líderes no turismo. Créditos: Divulgação Braztoa/DivulgaçãoMTur

Assim como Teté, Magda Nassar também é dessas mulheres que enfrentam jornada dupla e não desanimam diante dos entraves. “Comecei a trabalhar muito jovem e antes dos 30 já tinha a minha primeira empresa. Em algumas reuniões com parceiros, percebia que duvidavam da minha competência por ser mulher e jovem, mas pude utilizar esse desafio como aprendizado e escada para minhas conquistas”, reforça Nassar.

Além de empresária, Magda é presidente da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo, a BRAZTOA, e também trabalha pela melhoria do turismo no Brasil. Quando perguntada sobre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no mundo corporativo, a gestora mostra que a dedicação delas é que vai mudar o quadro. “Quando me deparo com mulheres altamente preparadas e um salário não condizente com essa realidade, percebo que nós nos sentimos na obrigação de fazer melhor e acabamos, de fato, colocando isso em prática. A gente já avançou bastante e tivemos muitas abrindo caminho para chegarmos onde estamos. Agora é nossa vez de não desanimar, abrir novas portas e encorajar as que virão”, finaliza Nassar.

Ser apaixonada por turismo e fazer dele um trabalho foi a escolha feita por Elisabeth Leite, que há 11 anos é guia de turismo em Pernambuco. “Não queria ficar em um escritório e vejo um Pernambuco multicultural, onde o viajante encontra atrativo para o ano todo. Quer calor? Vem para Recife. Quer frio? Que tal visitar Gravatá? Em fevereiro temos carnaval tradicional em Bezerros. Enfim, é turismo para os 365 dias no ano”, conta.

Elisabeth também é presidente do sindicado de guias do estado. Crédito: Arquivo Pessoal

De fato, o estado é plural. Em março, Elisabeth vai levar vários grupos de turistas para o maior teatro a céu aberto do mundo: a Paixão de Cristo, na cidade de Brejo da Madre de Deus. A região espera receber cerca de 1200 ônibus cheios de turistas. “Tem que ter coragem para assumir a responsabilidade de levar um grupo de pessoas para visitar uma cidade desconhecida para eles. O pessoal acha que a gente, por ser mulher, é mais frágil e não vai conseguir. Na verdade, é o contrário: noto muito mais cuidado com a segurança dos turistas pelo olhar de guias mulheres do que de guias homens”, informa.

PELO OLHAR DE QUEM VIAJA – No outro lado do setor, estão as mulheres que desbravam o país para conhecer as belezas das regiões. Desde 2011, Juliana Boechat decidiu que iria viajar pelo menos uma vez ao ano. “Sempre gostei de viajar para América do Sul e agora estou descobrindo o Brasil. É uma região tão cheia de cultura que não tem desculpa para não conhecer. Quantas histórias, sotaques, sabores, jeitos de viver diferentes a gente descobre na nossa própria casa! É encantador”, relata.

Juliana, que é jornalista, resolveu juntar a paixão que as experiências das viagens trazem com o trabalho de comunicadora. Junto com o namorado, Danilo Borges, ela divulga conteúdos sobre as curiosidades e os encantos do Brasil no Instagram @viarreros. “São fotos, vídeos e informações com o passo a passo dos nossos roteiros. A ideia é que o seguidor consiga dicas para organizar uma viagem segura e valorosa, pois a gente quer mostrar o que os locais têm de mais especial. Basta buscar as nossas hashtags e o conteúdo vai estar lá”, explica Boechat.

Luana Alves também é apaixonada por turismo e decidiu desbravar o país na companhia de si mesma. “Não queria depender das pessoas para conhecer novos lugares. Parece um pouco egoísta, mas acredito que somos autoras dos nossos sonhos e temos que ir atrás do que desejamos”, narra. A primeira viagem da psicóloga foi para Ouro Preto (MG). Depois, nunca mais parou e já carrega na memória as imagens de Bonito (MS), Chapada Diamantina (BA) e Fortaleza (CE). As experiências dessas e das futuras emoções no Jalapão (TO), Serra do Cipó (MG) e Arraial do Cabo (RJ) são contadas no Lua Vai Dizer.

Tanto Juliana quanto Luana acreditam no turismo como uma oportunidade para que as mulheres floresçam seus potenciais. As duas explicam que viajar proporciona troca de cultura com outras pessoas, modifica a visão de si mesma sobre a realidade e passa a ideia de uma mulher corajosa e segura de si.

Juliana Boechat nos Lençóis Maranhenses (MA). Crédito: Danilo Borges/Instagram

DESAFIOS QUE VIRAM FLORES NO CAMINHO– Mas nem tudo em uma viagem “feminina” são flores. Preocupar-se com a segurança deve ser requisito para todos os viajantes, em especial para mulheres, de acordo com as duas entrevistadas. “As pessoas me perguntam se tenho medo de viajar sozinha.  Não posso negar que sim, mas planejo meu roteiro com antecedência e evito imprevistos. Quer saber? Nós lutamos tanto para mostrar nosso potencial e ganhar nosso dinheiro que merecemos quebrar as barreiras para viver uma viagem”, ressalta Luana

“A insegurança é o principal desafio e nós também nos sentimos expostas ao assédio. Acontece que muitas vezes temos medo do desconhecido simplesmente por ser desconhecido. Seja com alguém que te passa segurança, sozinha, na cidade vizinha ou do outro lado do Brasil, vai por mim: vale a pena vencer todos os medos e descobrir mil coisas novas. E aí cada um pode atrelar o que gosta à viagem, pois tem opção de turismo religioso, de aventura, resorts, cruzeiro. Tem para todo mundo e é só ir!”, finaliza Juliana.